domingo, 25 de setembro de 2016

On the daily life of metropolises.

"The daily existence of the metropolitan territory as an archipelago tends to generate a perceptive map of the metropolis which, for major population groups, results in an obfuscation or even obliteration of the spaces and territories that lie in between and beyond these 'islands'. There seems to be an organized (though not necessarily intentional) ignorance of the interstitial or extreme spaces of the 'islands', nodal points of functional mobility and urban productivity, now elevated to a legitimatizing ideology defining proper ways to organize and use the urban space. In the connectionist and binary language of networks, the islands represent the nodal points of a network, in between which circulates what's 'in' as opposed to what's 'out'. By way of Erving Goffman's old metaphor we might say that the new ways of organizing metropolitan space tend to produce many and diverse 'backstages' as opposed to the 'stages' of urban everyday life (...).
We are thus looking at an advent of the perception of metropolitan space as functional, in the face of the demands of global competition, which tends to reify certain uses of space by presenting them as self-evident and unquestionable. Even the frequent bouts of criticism by the city users tend to focus more one the system's 'malfunctions' (occasional failures on the system of public transportation, potholes on the road...) than on questioning the basic foundations of its construction. We're referring to an inevitably moral set of choices aggregated within a metropolitan society, in which [each collective entity] is unevely positioned to impress its own point of view and thus to build [urban space]. In this context, to criticize the mundane or 'naturalized' perception of the functional spaces of urban life might contribute towards an increased democratization of daily existence in contemporary metropolises".
Martins, A.C. & Mota, C. (2011). Metropolitan citizenship and critiques of everyday life. in MELE, V. (ed.). Sociology, Aesthetics and the City. Pisa: Pisa University Press.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Estádios



Imagem extraída de  http://www.quotationof.com/bio/richard-rorty.html

«The end of philosophy-as-successor-of-theology, a "pure" subject in which deep problems are attacked by appropriately pure methods, will not occur in our time. No one knows, indeed, whether it will ever occur - whether what Comte called "the positivistic stage" will ever be reached. If it is reached, however, it will not be as Comte conceived it; it will not be an age in which everything has become "scientific". Science as the source of "truth" - a value which outranks the mere goodness of moral virtue and the mere beauty of art - is one of the Cartesian notions which vanish when the ideal of "philosophy as strict science" vanishes».

- Richard Rorty, The Consequences of Pragmatism

terça-feira, 17 de novembro de 2015

quarta-feira, 18 de março de 2015

Building paths towards death

A propósito da publicação, prevista para breve, de um livro colectivo, em Inglaterra, o qual tenho o gosto de coordenar, em parceria com José Resende, deixo aqui parte de um capítulo escrito por mim, na sequência do projecto de investigação, financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, Building paths to death: an analysis of everyday work in palliative care. Talvez possa suscitar a curiosidade e o interesse de potenciais leitores(as).

In this chapter (...), we address the hospital careers of illness which characterise the end-of-life of many during their aging process. The hospital careers of illness include the different experiences that people undergo in their relations with hospitals and healthcare professionals. For example, some patients repeatedly return to the same hospital infirmary. When this happens, the healthcare teams might react differently to the way they react when a “newcomer” arrives. The extent of the patient’s familiarity with the hospital can also influence his reactions during the path towards death. One aspect of the effect of careers of this type in terminal situations is the conception of time, for example, in the acceptance or non-acceptance of death. These careers can exert considerable importance in end-of-life processes, affecting the interaction around the terminal patient and organisation of his terminal care.

terça-feira, 17 de março de 2015

(Mais um) Desabafo

Sabemos, de ciência segura, que significantes aparentemente anódinos podem apoiar operações (não necessariamente intencionais) de "estreitamento conceptual" (simplifiquemos) que, do ponto de vista económico, social e político, significam, com demasiada frequência, processos de redução do pluralismo e, ou, de instituição de quadros legitimadores do poder deste ou daquele indivíduo ou colectivo. Todavia, mesmo sem irmos longe no escrutínio sociológico, apetece dizer: há situações em que o processo é tão abertamente um processo inepto que se tratará de mera confusão, a qual apenas poderá vingar onde não haja  grande discernimento.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Outrora


Imagem extraída de: http://hdw.eweb4.com/out/162573.html

Dei comigo há pouco a reler um "velhinho" trabalho realizado por mim, para uma cadeira de Metodologias, durante a frequência do meu mestrado. Resolvi partilhar parte do texto, mesmo sem revisão.

© Alexandre Cotovio Martins

Da exaustividade e da aleatoriedade na investigação sociológica

Jean-Claude Passeron defende a posição segundo a qual não se pode esperar, no trabalho sociológico, que um levantamento de dados seja, quer exaustivo, quer aleatório (Cfr. Passeron, 1995).
            De acordo com esta posição, apenas uma concepção naïve da investigação sociológica pode fundamentar a crença na exaustividade e na aleatoriedade na constituição de um corpus.
            Com efeito, se se admitir, com Augusto Santos Silva, que “o mundo que pretendemos representar é infinito, quer em extensão, quer em intensidade: tão impossível se tornaria dar conta da infinita variedade de fenómenos nele contidos como da infinita variedade de elementos[1] e aspectos de um único fenómeno” (Cfr. Silva, 1988, pp.45-106), rapidamente se compreende que, por mais que se considere seja natural qualquer acto constitutivo de um objecto como “dado” na constatação perceptiva[2], não se pode esperar que esta última seja, ela própria, acomodação pura e simples ao real. Na verdade, é adequado dizer-se que o próprio acto perceptivo é um acto de construção[3], em que intervêm inúmeros factores, sendo que um objecto apenas aparece como aparece por esse acto constitutivo. Por exemplo, aquilo a que chamamos cores não são mais que um determinado modo de percepção de uma parte daquilo a que chamamos luz. Através deste exemplo, percebe-se que o real nunca é simplesmente “dado” ao entendimento, mas, muito pelo contrário, o que se designa correntemente como tal é uma construção complexa em que influem inúmeros factores de peso diferenciado. Posto isto, para entrar mais especificamente na problemática em causa, é importante afirmar que qualquer acto descritivo é, como sugerido acima, parcial: trata-se de algo que se poderia designar metaforicamente como uma relação luz-sombra, na medida em que, quando se constitui um determinado aspecto de um objecto qualquer como “dado”, através de uma descrição pertinente face a determinados protocolos de observação, está-se, no mesmo golpe, a relegar para a “obscuridade” todos os outros aspectos do objecto, que se podem mostrar pertinentes face a outros protocolos de observação. Assim, parece que o acto do entendimento dirigido a um objecto é, simultaneamente, constitutivo e exclusivo. Ao constituir como significativo, exclui; a partir daqui, talvez se afigure importante procurar compreender o que leva, a cada momento, a constituir como significativo este ou aquele objecto ou este ou aquele aspecto de um objecto. Por outras palavras, é decerto importante o estudo dos factores que influem na constituição das descrições.
            A explicação, já clássica em sociologia, mas, nem por isso, talvez, menos pertinente ou exacta, para a dilucidação desta última questão, foi dada por Max Weber, na linha das correntes neo-kantianas da filosofia histórica alemã. Senão, veja-se: “todo o conhecimento da realidade cultural é (...) sempre um conhecimento sob pontos de vista especificamente particularizados. Quando exigimos do historiador ou do investigador de ciências sociais que saiba distinguir- como pressuposto elementar- o importante do não importante, e que para operar essa distinção possua os necessários “pontos de vista”, isso quer dizer simplesmente que ele terá de saber referir – consciente ou inconscientemente – os processos da realidade a “valores culturais” e, de acordo com isso, seleccionar as conexões que para nós são significativas. A opinião, com que deparamos frequentemente, de que aqueles pontos de vista podem ser “retirados à própria matéria”, provém da ingénua ilusão do especialista que não se dá conta de que, em virtude das ideias de valor com que inconscientemente abordou a matéria em estudo, seleccionou um aspecto ínfimo da absoluta infinidade, e só esse componente lhe interessa considerar ( Cfr. Weber, Max, in Cruz, 1989, pp.632-633)”. Este problema é mesmo um problema epistemológico geral[4], que não apenas da epistemologia das ciências sociais. Conforme escreve Santos Silva, referindo-se às ciências “é-lhes imprescindível perspectivar os fenómenos a partir de certos ângulos de focagem; seleccionar de entre a infinitude de elementos do real aqueles que lhes interessam, aqueles que convertem em balizas empíricas dos problemas que colocam, abstraindo dos restantes” (Cfr. Silva, 1988, pp. 45-106).
            Mas, como se define este interesse? Uma resposta fundada a esta questão exigiria, só por si, um tratamento específico de grande fôlego, mas pode-se, pelo menos, avançar algo, de acordo com aquilo que diz Jean-Claude Passeron. Para este autor, a pertinência de uma linguagem teórica de descrição do mundo é um facto social, um estado determinado do acordo linguístico existente no seio de uma comunidade falante (Cfr. Passeron, 1991, p.361). Segundo o autor, “dans les cas d'une «science empírique», les assertions qui affirment ou nient un état du monde – qui énoncent que «tel est le cas, ou non» - supposent que le système des «preuves» et des «constats» soit fondé sur un accord intersubjectif (et donc linguistique) entre chercheurs capable de stabiliser le formulation des «protocoles» de l'observation empirique dans le même langage que celui de leur rattachement aux concepts d'une théorie explicative ou interprétative. La description épistémologique prend la forme d'une description des argumentations naturelles lorsque les faits construits par une science dans un espace logique sont les faits «empiriques» et non plus seulement des faits «formels» sur lesquels peuvent porter des «démonstrations» au sens strict. Seule, en effet, une langue naturelle peut jouer le rôle d'une métalangue pour décrire un état des rapports entre le langage et le monde (Cfr. Passeron, 1995, p.16)”. É, pois, a fortiori evidente que, para Jean-Claude Passeron, apenas uma língua natural pode falar das relações entre uma linguagem artificial e um “estado de coisas”. Este autor, rejeita, assim, automaticamente, certos projectos logicistas, como, para citar um exemplo, a tentativa de Gottlob Frege para fundar uma ideografia, que definiria, de uma vez por todas e de forma absolutamente unívoca, as relações entre a linguagem que a constituiria e o mundo. Uma postura teórica clássica que pode servir para inteligibilizar esta questão é a de Ferdinand de Saussure, que afirmou a impossibilidade de encontrar relações necessárias entre uma qualquer linguagem e as “coisas”, concluindo da arbitrariedade referencial das línguas[5]. Dito isto, percebe-se melhor que seja, sempre, um sistema axiológico que orienta a escolha de uma determinada descrição da realidade em detrimento de outras possíveis e, assim, os factos pertinentes face a essas descrições são sempre função de um acordo intersubjectivo – que reenvia, ele próprio, para toda uma estrutura social, como defende Bourdieu, referindo-se embora a outras questões:”a relação de força linguística não é totalmente dominada pelas forças linguísticas em presença e (...), através das línguas faladas, dos falantes que as falam, dos grupos definidos pela posse da compreensão correspondente, toda a estrutura social está presente em cada interacção (e, desta forma, também no discurso)”. ( Cfr. Bourdieu, 1995, p.55 ). O mais importante talvez seja, a este nível, a tarefa de explicitação desses pressupostos implícitos que, por menos conhecidos, tenderão a ser menos controlados na prática científica. Jean-Claude Passeron escreve ( Cfr. Passeron, 1991, pp. 398-399 ): “Selon que les conventions qui font correspondre des énoncés et des «états de choses» (a) portent sur les énoncés engendrés par une langue naturelle ou stabilisés dans une culture pratique, sans intervention active des locuteurs ou des pratiquants, ou selon que (b) ces conventions sont élaborées explicitement et travaillées méthodiquement par des spécialistes aux fins de protocolariser une langue de description, on a affaire (a) à une théorie implicite du monde ou (b) à une connaissance explicitement théorique du monde”. A explicitação é, pois, para Passeron, um “critério de demarcação” particularmente significativo[6].
            Quanto à segunda questão, a da impossibilidade de um inquérito sobre o mundo histórico ser aleatório, parece pertinente dizer-se que isso se deve a que talvez seja impossível garantir, totalmente a priori, a existência de uma distribuição homogénea das probabilidades para cada indivíduo de uma população considerada ser amostrado. Na verdade, se se desconhece a população, não se pode garantir à partida que todos os seus elementos tenham uma probabilidade igual de serem amostrados[7].
            É importante ter em conta que parece plausível a presunção de que a probabilidade de existência objectiva de uma probabilidade exactamente igual de ser amostrado para cada indivíduo de uma população é muito baixa, se não nula. Seria necessário existir uma distribuição dos indivíduos da população totalmente homogénea por referência à possibilidade de serem entrevistados. Um exemplo da dificuldade resulta da parcialidade espácio-temporal das sucessivas situações de inquérito que podem ser conduzidas para tentar cumprir o ideal da aleatoriedade total. Ademais, poder-se-á perguntar se a própria ideia de equi-distribuição espácio-temporal de um determinado conjunto de propriedades ou indivíduos, que subjaz à crença na possibilidade de uma representatividade perfeita baseada na aleatoriedade, tem uma probabilidade razoável de se realizar no campo da investigação sociológica. Pode-se, com efeito, questionar a ideia de que, num determinado contexto histórico, a probabilidade de todos os indivíduos pertinentes para a investigação conduzida serem interpelados por um entrevistador e serem por ele entrevistados é igual. Se a probabilidade de, após lançamento de um dado honesto sobre uma superfície homogénea, uma sua face determinada ficar virada para cima é de 1/6, será que, numa população de, digamos, 500 indivíduos, a probabilidade de cada um deles se cruzar com um entrevistador e ser por ele entrevistado é de 1/500? Talvez não. No caso do lançamento do dado, para retomar o exemplo, o conjunto das condições necessárias para que se determine o espaço de acontecimentos que permitem o cálculo da probabilidade de saída de uma dada face é, em princípio, relativamente simples. A determinação dos factores que influem no acontecimento provável é possível. Mas, no caso da observação histórica, as coisas não são tão simples. Como diz Passeron ( 1995, p.28), “on sait (...) qu'il ne suffit pas de procéder «au hasard» dans une campagne de récollection des données pour avoir opéré, au sens statistique du terme, un «échantillonage aléatoire», tant que l'on ne connaît pas, afin de pouvoir y échantilloner au sens strict, la population de réference ( population de propriétés ou population d'individus) susceptible d'être mise en liste «sans omission ni répétition»”. Por outras palavras, surge, desde logo, o problema do desconhecimento, a priori, das condições pertinentes que definem a distribuição de um conjunto de indivíduos ou propriedades por um determinado arranjo espácio-temporal – sendo que esse desconhecimento não pode, talvez muito pelo contrário, ser ultrapassado pela mera recolha “ao acaso” de dados. Imagine-se, por exemplo, que se pretende saber, por amostragem, qual a percentagem de indivíduos de uma população que possuem uma determinada característica, seja ela um rendimento superior a  x. Sem qualquer tipo de conjectura sobre os intervalos espácio-temporais onde seria mais provável encontrar indivíduos com essa característica, o risco de sub- ou sobre-representação do número desses indivíduos na amostra, construída “totalmente” ao acaso, pode aumentar. Com efeito, a distribuição dos indivíduos com esse rendimento pelos diversos locais e períodos amostráveis não é necessariamente homogénea. Ou seja, a probabilidade de encontrar e entrevistar um indivíduo com o rendimento x não é idêntica para todo e qualquer local e período. Ora, a amostragem ao acaso, aceite acriticamente, parte do pressuposto implícito de que todos os locais e períodos possíveis representam intervalos em que a probabilidade de encontrar e entrevistar um indivíduo da população em causa é, ou será tendencialmente[8] a mesma, o que, di-lo a teoria sociológica, é as mais das vezes, falso. No caso dos rendimentos, é por demais sabido que os indivíduos com diferentes rendimentos tendem a encontrar-se, nas sociedades modernas, desigualmente distribuídos por relação ao espaço e ao tempo.
            Como é compreensível, apenas o estabelecimento de conjecturas teoricamente fundadas (isto é, que integrem, também, informação empírica) pode ser relevante para a decisão do investigador de amostrar uma população de uma determinada forma. O problema é que o investigador não possui, nas ciências históricas, dado o carácter fluido, transitório, assimétrico, dos fenómenos sociais, uma justificação de pertinência teórica definitiva para amostrar uma população desta ou daquela forma – como o terá, por exemplo, o cientista experimental. Por aqui compreende-se, sem dúvida, a insistência de Jean-Claude Passeron na necessidade de o raciocínio sociológico ser “controlado” por uma argumentação cerrada, que faz intervir no seu discurso o maior número possível de comparações entre contextos heterogéneos, ou seja, contextos cujas eventuais analogias não esgotam a infinitude dos seus traços pertinentes. Tendo como adquirida a noção de que os caracteres pertinentes para a descrição e explicação de um contexto histórico são potencialmente infinitos, o sociólogo não pode esperar aplicar de forma válida a cláusula ceteribus paribus, nem postular a priori a existência de uma distribuição espácio-temporal uniforme dos indivíduos para a sua investigação. Assim, Passeron sugere que sejam as próprias questões, teoricamente informadas, colocadas pelo investigador ao real, que conduzam a sua escolha de determinados “casos”, onde se espera que se possa observar o funcionamento dos processos que se pretende explicar. Trata-se, então, de “privilegiar” certos casos em detrimento de outros, considerados menos pertinentes à luz do raciocínio desenvolvido.
            De acordo com esta perspectiva, a generalização dos resultados das investigações sociológicas não resulta de um mero automatismo formal, mas de um raciocínio comparativo, capaz de procurar encontrar analogias entre contextos heterogéneos. Ou seja, o sociólogo não pode esperar executar generalizações através do simples uso de automatismos sintácticos de uma qualquer linguagem formal, mas sim pelo recurso à comparação entre contextos definidos no tempo e no espaço, comparação onde os próprios argumentos quantitativos têm, aliás, todo o sentido[9]. O sociólogo, para efectuar este tipo de comparação, deve munir-se de uma capacidade de trabalhar conceptualmente as semelhanças que supõe existentes entre contextos heterogéneos, aumentando, assim, a semântica empírica dos conceitos utilizados nesse trabalho (generalização). Ao tratar como equivalentes dois contextos distintos, o investigador presume essa equivalência, de acordo com pressupostos teóricos que deve explicitar, para não acabar por cair em metafísicas inconscientes ou em filosofias da história com os sinais exteriores da ciência.




[1]    Conceito que um autor como Gaston Bachelard criticou; para o epistemólogo francês, o “elemento” clássico de certas linhas argumentativas positivistas ou realistas não é uma noção completamente exacta. Leia-se um exemplo dessa crítica na sua obra: “Un élément n'est (...) un ensemble de propriétés différentes comme le veut l'intuition substantialiste usuelle. C'est une collection d'états possibles pour une propriété particulière. Un élément n'est pas une hétérogénéité condensée. C'est une homogénéité dispersée” (Cfr. Bachelard, 1988,p.89 e segs.).
[2]    Proximidade que define o ideal dos credos empiristas.
[3]    Que não resulta sequer, propriamente falando, exclusivamente do aparelho sensorial da espécie humana, mas, entre outras coisas, de um processo de socialização; como defende Norbert Elias, “além da sua língua, as crianças adquirem, inevitavelmente, partes do fundo de conhecimento da sociedade em que crescem, as quais se interligam, de forma sistemática, com o conhecimento que pode ser adquirido através da própria experiência. O conhecimento adquirido por uma criança a partir da sua experiência pessoal e o conhecimento que faz parte do fundo social de conhecimento tendem a ficar intimamente ligados, tornando-se difícil distingui-los (Cfr. Elias, 1994). Noutra sua obra, o autor escreve: (Cfr. Elias, 1991, p.78):”Du fait même que la commande relationnelle relativement indéfinie du nouveau-né ne se définit et ne se règle pour prendre forme véritablement humaine qu'au travers du rapport avec les autres, ce que nous rencontrons par la suite sous la forme de “psychisme” de l'adulte ne peut être pas en soi extérieur à la société ou asocial, mais est au contraire fonction de cette unité relationnelle d'ordre dominant que nous appelons la “société”; toute la façon dont l'individu se considère et se dirige dans les rapports avec les autres dépend de la structure du groupe humain dont il apprend à dire “nous”.
[4]    O que o próprio Weber não deixou de perceber e analisar, na esteira dos filósofos neo-kantianos.
[5]    Veja-se, a este respeito Iorgu Iordan, 1982, pp.373 e seguintes.
[6]    O que, como resulta claro, implica, pelo menos em alguns casos, toda uma sociologia do conhecimento e, mais particularmente, uma sociologia do conhecimento científico. Seria talvez pertinente questionar, noutro âmbito, se pode haver uma gnoseologia consequente que não leve em conta os contributos de uma sociologia do conhecimento.
[7]    Uma teoria objectiva da probabilidade, como a defendida por Karl Popper (Cfr., Popper, 1998, pp. 160-236 ) que propõe um cálculo probabilístico baseado nas frequências observadas, não o fará, pensa-se. Porque, não se conhe- cendo distribuição de frequências nenhuma, não se pode tecer considerações rigorosas acerca das distribuições a observar. 
[8]    De acordo com a Lei dos Grandes Números.
[9]    Sobretudo se se perfilhar a postura de Passeron, que atenua, ou mesmo dissolve, num certo sentido, a distinção entre estratégias de investigação “quantitativas” e “qualitativas”  (cfr. Passeron, 1995,1996).

sábado, 13 de julho de 2013

Integração e coesão

Tandis que le modèle de l'intégration sociale vise à installer des normes publiques durables, sinon éternelles et universelles, la cohésion appelle la gouvernance et le pilotage par des indicateurs utilisés comme outils.

François Dubet, Le travail des soctétés.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Pragmatismo e Grounded Theory

O sistema metodológico conhecido na comunidade científica como Grounded Theory Method (GTM), criado e desenvolvido em alguns dos seus aspectos fundamentais por Barney Glaser e Anselm Strauss, contribuiu muito, aquando do seu surgimento já há várias décadas e como talvez nenhum outro, para prestigiar, mormente no mundo anglófono, as chamadas estratégias de investigação qualitativas, fornecendo-lhes um dispositivo metodológico tão robusto como o das estratégias quantitativas. Por outro lado, o esforço metodológico dos dois sociólogos americanos, cada um deles oriundo de «escolas» intelectuais diferentes - Strauss mais próximo do interaccionismo simbólico e do pragmatismo e Glaser mais próximo de referências como Merton e Lazarsfeld -, centrou-se bastante na recusa daquilo a que eu chamaria de algum academismo - ou escolasticismo - de algumas análises da sua época, orientando-se, por sua vez, para uma referenciação empírica aturada dos processos cognitivos de construção de uma perspectiva científica sobre a realidade social. Daí a ideia-chave exposta logo no título da abordagem, Grounded Theory, que remete para a possibilidade de construção de conceitos directamente a partir do «terreno». Ora, olhar hoje para esta abordagem no quadro do trabalho científico implica resgatar aquilo que nela existiu de melhor e, correlativamente, rejeitar alguns dos seus principais pontos fracos. Um destes pontos está, indubitavelmente, no facto de Glaser e Strauss, no seu esforço de ruptura com a «teoria teórica», terem levado demasiado longe a crença nas possibilidades de uma indução «pura», acabando por abrir a porta a um empirismo ingénuo. Diga-se de passagem que será este empirismo que seduz tantos investigadores em formação, designadamente na área da saúde, para a utilização do GTM. Surgem assim análises semi-doutas, em que se não leu a bibliografia relevante na área disciplinar ou empírica que se pretende abordar. Emergem assim muitas teses em áreas híbridas e amorfas, cujo significado científico é, em meu entender, próximo de nulo ou, no melhor dos casos, trivial. Antony Bryant, no artigo «Grounded Theory and Pragmatism: The Curious Case of Anselm Strauss», recupera a ligação entre a tradição intelectual do interaccionismo simbólico e pragmatismo em que Anselm Strauss filiava amplamente a sua formação científica - mas da qual nunca deu, segundo aquele autor, suficiente conta na sua obra - para reler e recuperar o melhor do GTM, designadamente chamando a atenção para o conceito de abdução - conceito lógico de índole pragmatista, ou não fosse oriundo da pena de Charles Peirce - e da sua centralidade no processo de revigoração do GTM pela via do pragmatismo.

Apenas uma nota: a mim, que utilizei justamente estes princípios de articulação entre pragmatismo e GTM num projecto científico que gizei recentemente, apraz-me particularmente a leitura do texto de Bryant.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Sociometrias


Imagem extraída de http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0362331911001066

Num tempo em que, nomeadamente na política, com demasiada facilidade se lê o mundo social sem explicitação, análise ou consideração séria de noções como interdependência, a leitura de alguma sociometria talvez fosse de não menosprezar.

http://www.cmu.edu/joss/content/articles/volume12/Beyhan.pdf

http://sociology.stanford.edu/people/mgranovetter/documents/granstrengthweakties.pdf

sábado, 17 de março de 2012

Ciências e filosofia política e social

«C'est de la philosophie politique que les sciences sociales ont hérité leurs questions fondatrices: cette observation forme un des points de départ du travail de Luc Boltanski et Laurent Thévenot dans De la justification. Les auteurs poursuivent leur raisonnement en présentant les approches théoriques fondamentales de ces disciplines (le collectivisme de la sociologie et l'individualisme de l'économie) comme des métaphysiques sociales opposées qui ne parviennennt pas à s'accorder sur leur principe supérieur commun. S'efforçant de trouver un fondement théorique à la possibilité d'un accord entre les êtres humains, chacune de ces approches préssuppose une forme de terrain d'entente (l'«identité collective ou le bien marchand») aux dépens, cependant, d'une compréhension de l'emergence d'une forme d'accord plutôt que d'une autre. Boltanski et Thévenot nomment cette opération «réduction des métaphysiques politiques en sciences sociales» et consacrent leurs efforts à une «mise à jour des métaphysiques politiques sous-jacentes». Une telle mise à jour, notent-ils, «est rendue plus difficile en raison de la rupture avec la philosophie par laquelle l'économie et la sociologie se sont toutes deux constituées en tant que disciplines scientifiques. [...] Elles on toutes deux été engendrées à partir des philosophies politiques qui leur on servi de matrice, et dans lesquelles les métaphysiques sont exposées».
Peter Wagner, «Lien social et lien politique. Les sciences sociales comme philosophie politique empirique».

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Modernidades

«Ce qui a intéressé, par dessus tout, Max Weber c'est le sens subjectif que les hommes ont donné, au cours de l'histoire, à leurs activités et la dynamique générale qui les anime. La révolution introduite par le protestantisme est, selon lui, d'avoir fait du travail professionnel un Beruf, c'est-à-dire à la fois un métier et une vocation, une nouvelle voie du salut et donc une manière de réaliser, dans le monde et non plus hors du monde, sa vocation de chrétien. C'est dire à quel point la question des significations religieuses de l'activité professionnelle est au coeur de l'interprétation weberiénne de l'histoire. (...) Mais, avec le basculement introduit par le capitalisme et le protestantisme, la rationalisation économique des activités et le désenchantement du monde qui l'accompagne, l'enjeu des activités professionnelles devient la monopolisation des chances de gains sur un marché. L'une des réponses historiques majeures à cet enjeu fut la diffusion du modèle bureaucratique, aussi bien dans les organisations économiques que dans les administrations d'État. Une nouvelle figure professionnelle, celle de l'expert, envahit ces bureaucraties. Elle sera confrontée aux deux autres figures "modernes" qui firent l'objet de réflexions approfondies de la part de Weber: celles du savant et de l'homme politique. Experts, savants et politiques constituent trois incarnations d'une nouvelle légitimité légale-rationnelle qui tend, selon lui, à remplacer les figures réligieuses antérieures, traditionnelles et charismatiques».
Claude Dubar e Pierre Tripier, Sociologie des professions.

domingo, 4 de setembro de 2011

Gramática liberal

«La grammaire du libéralisme politique diffère de celle des grandeurs en ce qu'elle ignore les biens communs autres que celui du public libéral. Elle met en revanche en avant les procédures de composition de ce public à partir des voix d'individus façonnés pour le public, procédures qui supposent que les biens soient réduits à l'état de préférences individuelles».


THÉVENOT, Laurent, in «Reconnaissances: avec Paul Ricoeur et Axel Honneth».

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Pobrezas - II

Já agora, uma entrevista de 2008 (ano da maioria dos dados que o INE compilou e referi na mensagem anterior), de Bruto da Costa. Note-se que foi o próprio Bruto da Costa que disse recentemente que os dados do momento actual, depois da «Crise», conterão, quando surgirem, bastante mais «pobreza».

http://www.publico.pt/Sociedade/pobreza-em-portugal-e-preciso-subir-os-salarios-e-diversificar-fontes-de-rendimento_1329698


Pobrezas

Avanço abaixo alguns dados do Instituto Nacional de Estatística, relativos à pobreza e constantes no documento (cuja leitura é evidentemente importante) Sobre a pobreza, as desigualdades e a privação material em Portugal. Creio que não necessitam de comentário.


Percentagem de indivíduos em risco de pobreza antes de qualquer transferência social: 41,5%, em 2008.


Percentagem de indivíduos em risco de pobreza após transferência de pensões: 24,3%, em 2008.


Percentagem de indivíduos em risco de pobreza após transferências sociais: 17,9%, em 2008.


Olhando-se para o indicador «taxa de risco de pobreza após transferências sociais segundo a condição perante o trabalho», verifica-se que 10,3% dos indivíduos empregados estavam, em 2008, em risco de pobreza.


Em Portugal e em 2008, a taxa de intensidade da pobreza, medida pela diferença relativa entre o limiar de pobreza e o rendimento mediano dos indivíduos em risco de pobreza era de 23,6%.


Uma citação:


«Portugal é um dos países da União Europeia que se caracteriza por uma elevada assimetria na distribuição dos rendimentos dos agregados familiares. Em 2007, último ano com dados disponíveis para o conjunto dos Estados-Membros, o coeficiente de Gini nacional [indicador que mede a desigualdade calculando a média normalizada das diferenças absolutas entre o rendimento de qualquer par de indivíduos de uma população, sintetizando num único valor a assimetria da distribuição do rendimento desses indivíduos], calculado com base no rendimento disponível por adulto equivalente, correspondia a 35,8%, mais 5,2 p.p. do que o coeficiente para o conjunto dos 27 países (30,6%). Em 2007, apenas três Estados-Membros - a Bulgária, a Letónia e a Roménia - registavam níveis de desigualdade superiores ao valor estimado para Portugal».

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Ideologia

Estava hoje a reler Ricoeur e apeteceu-me partilhar no blogue esta passagem, em que este autor se apoia na sociologia de Weber:



«O que a ideologia interpreta e justifica por excelência é a relação com as autoridades, com o sistema de autoridade. Para explicar este fenómeno, referir-me-ei (...) às análises bem conhecidas de Max Weber respeitantes à autoridade e à dominação. Toda a autoridade, observa ele, procura legitimar-se e os sistemas políticos distinguem-se conforme o seu tipo de legitimação. Ora, parece que, se toda a pretensão à legitimidade é correlativa de uma crença da parte dos indivíduos nesta legitimidade, a relação entre a pretensão emitida pela autoridade e a crença que lhe corresponde é essencialmente dissimétrica. Direi que há sempre mais na pretensão que vem da autoridade do que na crença que vai para a autoridade. Vejo aí um fenómeno irredutível de mais-valia, se por isso se entender o excesso do pedido de legitimação relativamente à oferta de crença. Talvez esta mais-valia seja a verdadeira mais-valia; toda a autoridade reclama mais do que aquilo que a nossa crença pode comportar, no duplo sentido de trazer e de suportar. É aqui que a ideologia se afirma como o reforço da mais-valia e, ao mesmo tempo, como o sistema justificativo da dominação».





Paul RICOEUR, Do Texto à Acção.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Lançamento de livro

Não serei a pessoa em melhor posição para avaliar a qualidade do livro (que penso valer a pena ler), mas a qualidade inequívoca dos comentadores é, julgo, motivo suficiente para uma deslocação de quem é amante ou profissional de sociologia à FCSH, no dia 21:

http://cesnova.fcsh.unl.pt/?area=000&mid=000&id=CNT4df0a5cac6076

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Acabado de sair

Foi recentemente dado à estampa o livro Sociology, Aesthetics and the City, editado por Vincenzo Mele (professor da Monmouth University, EUA) e publicado pela Imprensa da Universidade de Pisa, Itália. Escrevo nele, com Catarina Mota, um capítulo. Naturalmente, recomendo a obra.

http://www.edizioniplus.it/italiano/AspFiles/libro.asp?codlibro=728