sexta-feira, 13 de maio de 2016

Estádios



Imagem extraída de  http://www.quotationof.com/bio/richard-rorty.html

«The end of philosophy-as-successor-of-theology, a "pure" subject in which deep problems are attacked by appropriately pure methods, will not occur in our time. No one knows, indeed, whether it will ever occur - whether what Comte called "the positivistic stage" will ever be reached. If it is reached, however, it will not be as Comte conceived it; it will not be an age in which everything has become "scientific". Science as the source of "truth" - a value which outranks the mere goodness of moral virtue and the mere beauty of art - is one of the Cartesian notions which vanish when the ideal of "philosophy as strict science" vanishes».

- Richard Rorty, The Consequences of Pragmatism

terça-feira, 17 de novembro de 2015

quarta-feira, 18 de março de 2015

Building paths towards death

A propósito da publicação, prevista para breve, de um livro colectivo, em Inglaterra, o qual tenho o gosto de coordenar, em parceria com José Resende, deixo aqui parte de um capítulo escrito por mim, na sequência do projecto de investigação, financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, Building paths to death: an analysis of everyday work in palliative care. Talvez possa suscitar a curiosidade e o interesse de potenciais leitores(as).

In this chapter (...), we address the hospital careers of illness which characterise the end-of-life of many during their aging process. The hospital careers of illness include the different experiences that people undergo in their relations with hospitals and healthcare professionals. For example, some patients repeatedly return to the same hospital infirmary. When this happens, the healthcare teams might react differently to the way they react when a “newcomer” arrives. The extent of the patient’s familiarity with the hospital can also influence his reactions during the path towards death. One aspect of the effect of careers of this type in terminal situations is the conception of time, for example, in the acceptance or non-acceptance of death. These careers can exert considerable importance in end-of-life processes, affecting the interaction around the terminal patient and organisation of his terminal care.

terça-feira, 17 de março de 2015

(Mais um) Desabafo

Sabemos, de ciência segura, que significantes aparentemente anódinos podem apoiar operações (não necessariamente intencionais) de "estreitamento conceptual" (simplifiquemos) que, do ponto de vista económico, social e político, significam, com demasiada frequência, processos de redução do pluralismo e, ou, de instituição de quadros legitimadores do poder deste ou daquele indivíduo ou colectivo. Todavia, mesmo sem irmos longe no escrutínio sociológico, apetece dizer: há situações em que o processo é tão abertamente um processo inepto que se tratará de mera confusão, a qual apenas poderá vingar onde não haja  grande discernimento.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Outrora


Imagem extraída de: http://hdw.eweb4.com/out/162573.html

Dei comigo há pouco a reler um "velhinho" trabalho realizado por mim, para uma cadeira de Metodologias, durante a frequência do meu mestrado. Resolvi partilhar parte do texto, mesmo sem revisão.

© Alexandre Cotovio Martins

Da exaustividade e da aleatoriedade na investigação sociológica

Jean-Claude Passeron defende a posição segundo a qual não se pode esperar, no trabalho sociológico, que um levantamento de dados seja, quer exaustivo, quer aleatório (Cfr. Passeron, 1995).
            De acordo com esta posição, apenas uma concepção naïve da investigação sociológica pode fundamentar a crença na exaustividade e na aleatoriedade na constituição de um corpus.
            Com efeito, se se admitir, com Augusto Santos Silva, que “o mundo que pretendemos representar é infinito, quer em extensão, quer em intensidade: tão impossível se tornaria dar conta da infinita variedade de fenómenos nele contidos como da infinita variedade de elementos[1] e aspectos de um único fenómeno” (Cfr. Silva, 1988, pp.45-106), rapidamente se compreende que, por mais que se considere seja natural qualquer acto constitutivo de um objecto como “dado” na constatação perceptiva[2], não se pode esperar que esta última seja, ela própria, acomodação pura e simples ao real. Na verdade, é adequado dizer-se que o próprio acto perceptivo é um acto de construção[3], em que intervêm inúmeros factores, sendo que um objecto apenas aparece como aparece por esse acto constitutivo. Por exemplo, aquilo a que chamamos cores não são mais que um determinado modo de percepção de uma parte daquilo a que chamamos luz. Através deste exemplo, percebe-se que o real nunca é simplesmente “dado” ao entendimento, mas, muito pelo contrário, o que se designa correntemente como tal é uma construção complexa em que influem inúmeros factores de peso diferenciado. Posto isto, para entrar mais especificamente na problemática em causa, é importante afirmar que qualquer acto descritivo é, como sugerido acima, parcial: trata-se de algo que se poderia designar metaforicamente como uma relação luz-sombra, na medida em que, quando se constitui um determinado aspecto de um objecto qualquer como “dado”, através de uma descrição pertinente face a determinados protocolos de observação, está-se, no mesmo golpe, a relegar para a “obscuridade” todos os outros aspectos do objecto, que se podem mostrar pertinentes face a outros protocolos de observação. Assim, parece que o acto do entendimento dirigido a um objecto é, simultaneamente, constitutivo e exclusivo. Ao constituir como significativo, exclui; a partir daqui, talvez se afigure importante procurar compreender o que leva, a cada momento, a constituir como significativo este ou aquele objecto ou este ou aquele aspecto de um objecto. Por outras palavras, é decerto importante o estudo dos factores que influem na constituição das descrições.
            A explicação, já clássica em sociologia, mas, nem por isso, talvez, menos pertinente ou exacta, para a dilucidação desta última questão, foi dada por Max Weber, na linha das correntes neo-kantianas da filosofia histórica alemã. Senão, veja-se: “todo o conhecimento da realidade cultural é (...) sempre um conhecimento sob pontos de vista especificamente particularizados. Quando exigimos do historiador ou do investigador de ciências sociais que saiba distinguir- como pressuposto elementar- o importante do não importante, e que para operar essa distinção possua os necessários “pontos de vista”, isso quer dizer simplesmente que ele terá de saber referir – consciente ou inconscientemente – os processos da realidade a “valores culturais” e, de acordo com isso, seleccionar as conexões que para nós são significativas. A opinião, com que deparamos frequentemente, de que aqueles pontos de vista podem ser “retirados à própria matéria”, provém da ingénua ilusão do especialista que não se dá conta de que, em virtude das ideias de valor com que inconscientemente abordou a matéria em estudo, seleccionou um aspecto ínfimo da absoluta infinidade, e só esse componente lhe interessa considerar ( Cfr. Weber, Max, in Cruz, 1989, pp.632-633)”. Este problema é mesmo um problema epistemológico geral[4], que não apenas da epistemologia das ciências sociais. Conforme escreve Santos Silva, referindo-se às ciências “é-lhes imprescindível perspectivar os fenómenos a partir de certos ângulos de focagem; seleccionar de entre a infinitude de elementos do real aqueles que lhes interessam, aqueles que convertem em balizas empíricas dos problemas que colocam, abstraindo dos restantes” (Cfr. Silva, 1988, pp. 45-106).
            Mas, como se define este interesse? Uma resposta fundada a esta questão exigiria, só por si, um tratamento específico de grande fôlego, mas pode-se, pelo menos, avançar algo, de acordo com aquilo que diz Jean-Claude Passeron. Para este autor, a pertinência de uma linguagem teórica de descrição do mundo é um facto social, um estado determinado do acordo linguístico existente no seio de uma comunidade falante (Cfr. Passeron, 1991, p.361). Segundo o autor, “dans les cas d'une «science empírique», les assertions qui affirment ou nient un état du monde – qui énoncent que «tel est le cas, ou non» - supposent que le système des «preuves» et des «constats» soit fondé sur un accord intersubjectif (et donc linguistique) entre chercheurs capable de stabiliser le formulation des «protocoles» de l'observation empirique dans le même langage que celui de leur rattachement aux concepts d'une théorie explicative ou interprétative. La description épistémologique prend la forme d'une description des argumentations naturelles lorsque les faits construits par une science dans un espace logique sont les faits «empiriques» et non plus seulement des faits «formels» sur lesquels peuvent porter des «démonstrations» au sens strict. Seule, en effet, une langue naturelle peut jouer le rôle d'une métalangue pour décrire un état des rapports entre le langage et le monde (Cfr. Passeron, 1995, p.16)”. É, pois, a fortiori evidente que, para Jean-Claude Passeron, apenas uma língua natural pode falar das relações entre uma linguagem artificial e um “estado de coisas”. Este autor, rejeita, assim, automaticamente, certos projectos logicistas, como, para citar um exemplo, a tentativa de Gottlob Frege para fundar uma ideografia, que definiria, de uma vez por todas e de forma absolutamente unívoca, as relações entre a linguagem que a constituiria e o mundo. Uma postura teórica clássica que pode servir para inteligibilizar esta questão é a de Ferdinand de Saussure, que afirmou a impossibilidade de encontrar relações necessárias entre uma qualquer linguagem e as “coisas”, concluindo da arbitrariedade referencial das línguas[5]. Dito isto, percebe-se melhor que seja, sempre, um sistema axiológico que orienta a escolha de uma determinada descrição da realidade em detrimento de outras possíveis e, assim, os factos pertinentes face a essas descrições são sempre função de um acordo intersubjectivo – que reenvia, ele próprio, para toda uma estrutura social, como defende Bourdieu, referindo-se embora a outras questões:”a relação de força linguística não é totalmente dominada pelas forças linguísticas em presença e (...), através das línguas faladas, dos falantes que as falam, dos grupos definidos pela posse da compreensão correspondente, toda a estrutura social está presente em cada interacção (e, desta forma, também no discurso)”. ( Cfr. Bourdieu, 1995, p.55 ). O mais importante talvez seja, a este nível, a tarefa de explicitação desses pressupostos implícitos que, por menos conhecidos, tenderão a ser menos controlados na prática científica. Jean-Claude Passeron escreve ( Cfr. Passeron, 1991, pp. 398-399 ): “Selon que les conventions qui font correspondre des énoncés et des «états de choses» (a) portent sur les énoncés engendrés par une langue naturelle ou stabilisés dans une culture pratique, sans intervention active des locuteurs ou des pratiquants, ou selon que (b) ces conventions sont élaborées explicitement et travaillées méthodiquement par des spécialistes aux fins de protocolariser une langue de description, on a affaire (a) à une théorie implicite du monde ou (b) à une connaissance explicitement théorique du monde”. A explicitação é, pois, para Passeron, um “critério de demarcação” particularmente significativo[6].
            Quanto à segunda questão, a da impossibilidade de um inquérito sobre o mundo histórico ser aleatório, parece pertinente dizer-se que isso se deve a que talvez seja impossível garantir, totalmente a priori, a existência de uma distribuição homogénea das probabilidades para cada indivíduo de uma população considerada ser amostrado. Na verdade, se se desconhece a população, não se pode garantir à partida que todos os seus elementos tenham uma probabilidade igual de serem amostrados[7].
            É importante ter em conta que parece plausível a presunção de que a probabilidade de existência objectiva de uma probabilidade exactamente igual de ser amostrado para cada indivíduo de uma população é muito baixa, se não nula. Seria necessário existir uma distribuição dos indivíduos da população totalmente homogénea por referência à possibilidade de serem entrevistados. Um exemplo da dificuldade resulta da parcialidade espácio-temporal das sucessivas situações de inquérito que podem ser conduzidas para tentar cumprir o ideal da aleatoriedade total. Ademais, poder-se-á perguntar se a própria ideia de equi-distribuição espácio-temporal de um determinado conjunto de propriedades ou indivíduos, que subjaz à crença na possibilidade de uma representatividade perfeita baseada na aleatoriedade, tem uma probabilidade razoável de se realizar no campo da investigação sociológica. Pode-se, com efeito, questionar a ideia de que, num determinado contexto histórico, a probabilidade de todos os indivíduos pertinentes para a investigação conduzida serem interpelados por um entrevistador e serem por ele entrevistados é igual. Se a probabilidade de, após lançamento de um dado honesto sobre uma superfície homogénea, uma sua face determinada ficar virada para cima é de 1/6, será que, numa população de, digamos, 500 indivíduos, a probabilidade de cada um deles se cruzar com um entrevistador e ser por ele entrevistado é de 1/500? Talvez não. No caso do lançamento do dado, para retomar o exemplo, o conjunto das condições necessárias para que se determine o espaço de acontecimentos que permitem o cálculo da probabilidade de saída de uma dada face é, em princípio, relativamente simples. A determinação dos factores que influem no acontecimento provável é possível. Mas, no caso da observação histórica, as coisas não são tão simples. Como diz Passeron ( 1995, p.28), “on sait (...) qu'il ne suffit pas de procéder «au hasard» dans une campagne de récollection des données pour avoir opéré, au sens statistique du terme, un «échantillonage aléatoire», tant que l'on ne connaît pas, afin de pouvoir y échantilloner au sens strict, la population de réference ( population de propriétés ou population d'individus) susceptible d'être mise en liste «sans omission ni répétition»”. Por outras palavras, surge, desde logo, o problema do desconhecimento, a priori, das condições pertinentes que definem a distribuição de um conjunto de indivíduos ou propriedades por um determinado arranjo espácio-temporal – sendo que esse desconhecimento não pode, talvez muito pelo contrário, ser ultrapassado pela mera recolha “ao acaso” de dados. Imagine-se, por exemplo, que se pretende saber, por amostragem, qual a percentagem de indivíduos de uma população que possuem uma determinada característica, seja ela um rendimento superior a  x. Sem qualquer tipo de conjectura sobre os intervalos espácio-temporais onde seria mais provável encontrar indivíduos com essa característica, o risco de sub- ou sobre-representação do número desses indivíduos na amostra, construída “totalmente” ao acaso, pode aumentar. Com efeito, a distribuição dos indivíduos com esse rendimento pelos diversos locais e períodos amostráveis não é necessariamente homogénea. Ou seja, a probabilidade de encontrar e entrevistar um indivíduo com o rendimento x não é idêntica para todo e qualquer local e período. Ora, a amostragem ao acaso, aceite acriticamente, parte do pressuposto implícito de que todos os locais e períodos possíveis representam intervalos em que a probabilidade de encontrar e entrevistar um indivíduo da população em causa é, ou será tendencialmente[8] a mesma, o que, di-lo a teoria sociológica, é as mais das vezes, falso. No caso dos rendimentos, é por demais sabido que os indivíduos com diferentes rendimentos tendem a encontrar-se, nas sociedades modernas, desigualmente distribuídos por relação ao espaço e ao tempo.
            Como é compreensível, apenas o estabelecimento de conjecturas teoricamente fundadas (isto é, que integrem, também, informação empírica) pode ser relevante para a decisão do investigador de amostrar uma população de uma determinada forma. O problema é que o investigador não possui, nas ciências históricas, dado o carácter fluido, transitório, assimétrico, dos fenómenos sociais, uma justificação de pertinência teórica definitiva para amostrar uma população desta ou daquela forma – como o terá, por exemplo, o cientista experimental. Por aqui compreende-se, sem dúvida, a insistência de Jean-Claude Passeron na necessidade de o raciocínio sociológico ser “controlado” por uma argumentação cerrada, que faz intervir no seu discurso o maior número possível de comparações entre contextos heterogéneos, ou seja, contextos cujas eventuais analogias não esgotam a infinitude dos seus traços pertinentes. Tendo como adquirida a noção de que os caracteres pertinentes para a descrição e explicação de um contexto histórico são potencialmente infinitos, o sociólogo não pode esperar aplicar de forma válida a cláusula ceteribus paribus, nem postular a priori a existência de uma distribuição espácio-temporal uniforme dos indivíduos para a sua investigação. Assim, Passeron sugere que sejam as próprias questões, teoricamente informadas, colocadas pelo investigador ao real, que conduzam a sua escolha de determinados “casos”, onde se espera que se possa observar o funcionamento dos processos que se pretende explicar. Trata-se, então, de “privilegiar” certos casos em detrimento de outros, considerados menos pertinentes à luz do raciocínio desenvolvido.
            De acordo com esta perspectiva, a generalização dos resultados das investigações sociológicas não resulta de um mero automatismo formal, mas de um raciocínio comparativo, capaz de procurar encontrar analogias entre contextos heterogéneos. Ou seja, o sociólogo não pode esperar executar generalizações através do simples uso de automatismos sintácticos de uma qualquer linguagem formal, mas sim pelo recurso à comparação entre contextos definidos no tempo e no espaço, comparação onde os próprios argumentos quantitativos têm, aliás, todo o sentido[9]. O sociólogo, para efectuar este tipo de comparação, deve munir-se de uma capacidade de trabalhar conceptualmente as semelhanças que supõe existentes entre contextos heterogéneos, aumentando, assim, a semântica empírica dos conceitos utilizados nesse trabalho (generalização). Ao tratar como equivalentes dois contextos distintos, o investigador presume essa equivalência, de acordo com pressupostos teóricos que deve explicitar, para não acabar por cair em metafísicas inconscientes ou em filosofias da história com os sinais exteriores da ciência.




[1]    Conceito que um autor como Gaston Bachelard criticou; para o epistemólogo francês, o “elemento” clássico de certas linhas argumentativas positivistas ou realistas não é uma noção completamente exacta. Leia-se um exemplo dessa crítica na sua obra: “Un élément n'est (...) un ensemble de propriétés différentes comme le veut l'intuition substantialiste usuelle. C'est une collection d'états possibles pour une propriété particulière. Un élément n'est pas une hétérogénéité condensée. C'est une homogénéité dispersée” (Cfr. Bachelard, 1988,p.89 e segs.).
[2]    Proximidade que define o ideal dos credos empiristas.
[3]    Que não resulta sequer, propriamente falando, exclusivamente do aparelho sensorial da espécie humana, mas, entre outras coisas, de um processo de socialização; como defende Norbert Elias, “além da sua língua, as crianças adquirem, inevitavelmente, partes do fundo de conhecimento da sociedade em que crescem, as quais se interligam, de forma sistemática, com o conhecimento que pode ser adquirido através da própria experiência. O conhecimento adquirido por uma criança a partir da sua experiência pessoal e o conhecimento que faz parte do fundo social de conhecimento tendem a ficar intimamente ligados, tornando-se difícil distingui-los (Cfr. Elias, 1994). Noutra sua obra, o autor escreve: (Cfr. Elias, 1991, p.78):”Du fait même que la commande relationnelle relativement indéfinie du nouveau-né ne se définit et ne se règle pour prendre forme véritablement humaine qu'au travers du rapport avec les autres, ce que nous rencontrons par la suite sous la forme de “psychisme” de l'adulte ne peut être pas en soi extérieur à la société ou asocial, mais est au contraire fonction de cette unité relationnelle d'ordre dominant que nous appelons la “société”; toute la façon dont l'individu se considère et se dirige dans les rapports avec les autres dépend de la structure du groupe humain dont il apprend à dire “nous”.
[4]    O que o próprio Weber não deixou de perceber e analisar, na esteira dos filósofos neo-kantianos.
[5]    Veja-se, a este respeito Iorgu Iordan, 1982, pp.373 e seguintes.
[6]    O que, como resulta claro, implica, pelo menos em alguns casos, toda uma sociologia do conhecimento e, mais particularmente, uma sociologia do conhecimento científico. Seria talvez pertinente questionar, noutro âmbito, se pode haver uma gnoseologia consequente que não leve em conta os contributos de uma sociologia do conhecimento.
[7]    Uma teoria objectiva da probabilidade, como a defendida por Karl Popper (Cfr., Popper, 1998, pp. 160-236 ) que propõe um cálculo probabilístico baseado nas frequências observadas, não o fará, pensa-se. Porque, não se conhe- cendo distribuição de frequências nenhuma, não se pode tecer considerações rigorosas acerca das distribuições a observar. 
[8]    De acordo com a Lei dos Grandes Números.
[9]    Sobretudo se se perfilhar a postura de Passeron, que atenua, ou mesmo dissolve, num certo sentido, a distinção entre estratégias de investigação “quantitativas” e “qualitativas”  (cfr. Passeron, 1995,1996).

sábado, 13 de julho de 2013

Integração e coesão

Tandis que le modèle de l'intégration sociale vise à installer des normes publiques durables, sinon éternelles et universelles, la cohésion appelle la gouvernance et le pilotage par des indicateurs utilisés comme outils.

François Dubet, Le travail des soctétés.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Pragmatismo e Grounded Theory

O sistema metodológico conhecido na comunidade científica como Grounded Theory Method (GTM), criado e desenvolvido em alguns dos seus aspectos fundamentais por Barney Glaser e Anselm Strauss, contribuiu muito, aquando do seu surgimento já há várias décadas e como talvez nenhum outro, para prestigiar, mormente no mundo anglófono, as chamadas estratégias de investigação qualitativas, fornecendo-lhes um dispositivo metodológico tão robusto como o das estratégias quantitativas. Por outro lado, o esforço metodológico dos dois sociólogos americanos, cada um deles oriundo de «escolas» intelectuais diferentes - Strauss mais próximo do interaccionismo simbólico e do pragmatismo e Glaser mais próximo de referências como Merton e Lazarsfeld -, centrou-se bastante na recusa daquilo a que eu chamaria de algum academismo - ou escolasticismo - de algumas análises da sua época, orientando-se, por sua vez, para uma referenciação empírica aturada dos processos cognitivos de construção de uma perspectiva científica sobre a realidade social. Daí a ideia-chave exposta logo no título da abordagem, Grounded Theory, que remete para a possibilidade de construção de conceitos directamente a partir do «terreno». Ora, olhar hoje para esta abordagem no quadro do trabalho científico implica resgatar aquilo que nela existiu de melhor e, correlativamente, rejeitar alguns dos seus principais pontos fracos. Um destes pontos está, indubitavelmente, no facto de Glaser e Strauss, no seu esforço de ruptura com a «teoria teórica», terem levado demasiado longe a crença nas possibilidades de uma indução «pura», acabando por abrir a porta a um empirismo ingénuo. Diga-se de passagem que será este empirismo que seduz tantos investigadores em formação, designadamente na área da saúde, para a utilização do GTM. Surgem assim análises semi-doutas, em que se não leu a bibliografia relevante na área disciplinar ou empírica que se pretende abordar. Emergem assim muitas teses em áreas híbridas e amorfas, cujo significado científico é, em meu entender, próximo de nulo ou, no melhor dos casos, trivial. Antony Bryant, no artigo «Grounded Theory and Pragmatism: The Curious Case of Anselm Strauss», recupera a ligação entre a tradição intelectual do interaccionismo simbólico e pragmatismo em que Anselm Strauss filiava amplamente a sua formação científica - mas da qual nunca deu, segundo aquele autor, suficiente conta na sua obra - para reler e recuperar o melhor do GTM, designadamente chamando a atenção para o conceito de abdução - conceito lógico de índole pragmatista, ou não fosse oriundo da pena de Charles Peirce - e da sua centralidade no processo de revigoração do GTM pela via do pragmatismo.

Apenas uma nota: a mim, que utilizei justamente estes princípios de articulação entre pragmatismo e GTM num projecto científico que gizei recentemente, apraz-me particularmente a leitura do texto de Bryant.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Sociometrias


Imagem extraída de http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0362331911001066

Num tempo em que, nomeadamente na política, com demasiada facilidade se lê o mundo social sem explicitação, análise ou consideração séria de noções como interdependência, a leitura de alguma sociometria talvez fosse de não menosprezar.

http://www.cmu.edu/joss/content/articles/volume12/Beyhan.pdf

http://sociology.stanford.edu/people/mgranovetter/documents/granstrengthweakties.pdf

sábado, 17 de março de 2012

Ciências e filosofia política e social

«C'est de la philosophie politique que les sciences sociales ont hérité leurs questions fondatrices: cette observation forme un des points de départ du travail de Luc Boltanski et Laurent Thévenot dans De la justification. Les auteurs poursuivent leur raisonnement en présentant les approches théoriques fondamentales de ces disciplines (le collectivisme de la sociologie et l'individualisme de l'économie) comme des métaphysiques sociales opposées qui ne parviennennt pas à s'accorder sur leur principe supérieur commun. S'efforçant de trouver un fondement théorique à la possibilité d'un accord entre les êtres humains, chacune de ces approches préssuppose une forme de terrain d'entente (l'«identité collective ou le bien marchand») aux dépens, cependant, d'une compréhension de l'emergence d'une forme d'accord plutôt que d'une autre. Boltanski et Thévenot nomment cette opération «réduction des métaphysiques politiques en sciences sociales» et consacrent leurs efforts à une «mise à jour des métaphysiques politiques sous-jacentes». Une telle mise à jour, notent-ils, «est rendue plus difficile en raison de la rupture avec la philosophie par laquelle l'économie et la sociologie se sont toutes deux constituées en tant que disciplines scientifiques. [...] Elles on toutes deux été engendrées à partir des philosophies politiques qui leur on servi de matrice, et dans lesquelles les métaphysiques sont exposées».
Peter Wagner, «Lien social et lien politique. Les sciences sociales comme philosophie politique empirique».

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Modernidades

«Ce qui a intéressé, par dessus tout, Max Weber c'est le sens subjectif que les hommes ont donné, au cours de l'histoire, à leurs activités et la dynamique générale qui les anime. La révolution introduite par le protestantisme est, selon lui, d'avoir fait du travail professionnel un Beruf, c'est-à-dire à la fois un métier et une vocation, une nouvelle voie du salut et donc une manière de réaliser, dans le monde et non plus hors du monde, sa vocation de chrétien. C'est dire à quel point la question des significations religieuses de l'activité professionnelle est au coeur de l'interprétation weberiénne de l'histoire. (...) Mais, avec le basculement introduit par le capitalisme et le protestantisme, la rationalisation économique des activités et le désenchantement du monde qui l'accompagne, l'enjeu des activités professionnelles devient la monopolisation des chances de gains sur un marché. L'une des réponses historiques majeures à cet enjeu fut la diffusion du modèle bureaucratique, aussi bien dans les organisations économiques que dans les administrations d'État. Une nouvelle figure professionnelle, celle de l'expert, envahit ces bureaucraties. Elle sera confrontée aux deux autres figures "modernes" qui firent l'objet de réflexions approfondies de la part de Weber: celles du savant et de l'homme politique. Experts, savants et politiques constituent trois incarnations d'une nouvelle légitimité légale-rationnelle qui tend, selon lui, à remplacer les figures réligieuses antérieures, traditionnelles et charismatiques».
Claude Dubar e Pierre Tripier, Sociologie des professions.

domingo, 4 de setembro de 2011

Gramática liberal

«La grammaire du libéralisme politique diffère de celle des grandeurs en ce qu'elle ignore les biens communs autres que celui du public libéral. Elle met en revanche en avant les procédures de composition de ce public à partir des voix d'individus façonnés pour le public, procédures qui supposent que les biens soient réduits à l'état de préférences individuelles».


THÉVENOT, Laurent, in «Reconnaissances: avec Paul Ricoeur et Axel Honneth».

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Pobrezas - II

Já agora, uma entrevista de 2008 (ano da maioria dos dados que o INE compilou e referi na mensagem anterior), de Bruto da Costa. Note-se que foi o próprio Bruto da Costa que disse recentemente que os dados do momento actual, depois da «Crise», conterão, quando surgirem, bastante mais «pobreza».

http://www.publico.pt/Sociedade/pobreza-em-portugal-e-preciso-subir-os-salarios-e-diversificar-fontes-de-rendimento_1329698


Pobrezas

Avanço abaixo alguns dados do Instituto Nacional de Estatística, relativos à pobreza e constantes no documento (cuja leitura é evidentemente importante) Sobre a pobreza, as desigualdades e a privação material em Portugal. Creio que não necessitam de comentário.


Percentagem de indivíduos em risco de pobreza antes de qualquer transferência social: 41,5%, em 2008.


Percentagem de indivíduos em risco de pobreza após transferência de pensões: 24,3%, em 2008.


Percentagem de indivíduos em risco de pobreza após transferências sociais: 17,9%, em 2008.


Olhando-se para o indicador «taxa de risco de pobreza após transferências sociais segundo a condição perante o trabalho», verifica-se que 10,3% dos indivíduos empregados estavam, em 2008, em risco de pobreza.


Em Portugal e em 2008, a taxa de intensidade da pobreza, medida pela diferença relativa entre o limiar de pobreza e o rendimento mediano dos indivíduos em risco de pobreza era de 23,6%.


Uma citação:


«Portugal é um dos países da União Europeia que se caracteriza por uma elevada assimetria na distribuição dos rendimentos dos agregados familiares. Em 2007, último ano com dados disponíveis para o conjunto dos Estados-Membros, o coeficiente de Gini nacional [indicador que mede a desigualdade calculando a média normalizada das diferenças absolutas entre o rendimento de qualquer par de indivíduos de uma população, sintetizando num único valor a assimetria da distribuição do rendimento desses indivíduos], calculado com base no rendimento disponível por adulto equivalente, correspondia a 35,8%, mais 5,2 p.p. do que o coeficiente para o conjunto dos 27 países (30,6%). Em 2007, apenas três Estados-Membros - a Bulgária, a Letónia e a Roménia - registavam níveis de desigualdade superiores ao valor estimado para Portugal».

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Ideologia

Estava hoje a reler Ricoeur e apeteceu-me partilhar no blogue esta passagem, em que este autor se apoia na sociologia de Weber:



«O que a ideologia interpreta e justifica por excelência é a relação com as autoridades, com o sistema de autoridade. Para explicar este fenómeno, referir-me-ei (...) às análises bem conhecidas de Max Weber respeitantes à autoridade e à dominação. Toda a autoridade, observa ele, procura legitimar-se e os sistemas políticos distinguem-se conforme o seu tipo de legitimação. Ora, parece que, se toda a pretensão à legitimidade é correlativa de uma crença da parte dos indivíduos nesta legitimidade, a relação entre a pretensão emitida pela autoridade e a crença que lhe corresponde é essencialmente dissimétrica. Direi que há sempre mais na pretensão que vem da autoridade do que na crença que vai para a autoridade. Vejo aí um fenómeno irredutível de mais-valia, se por isso se entender o excesso do pedido de legitimação relativamente à oferta de crença. Talvez esta mais-valia seja a verdadeira mais-valia; toda a autoridade reclama mais do que aquilo que a nossa crença pode comportar, no duplo sentido de trazer e de suportar. É aqui que a ideologia se afirma como o reforço da mais-valia e, ao mesmo tempo, como o sistema justificativo da dominação».





Paul RICOEUR, Do Texto à Acção.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Lançamento de livro

Não serei a pessoa em melhor posição para avaliar a qualidade do livro (que penso valer a pena ler), mas a qualidade inequívoca dos comentadores é, julgo, motivo suficiente para uma deslocação de quem é amante ou profissional de sociologia à FCSH, no dia 21:

http://cesnova.fcsh.unl.pt/?area=000&mid=000&id=CNT4df0a5cac6076

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Acabado de sair

Foi recentemente dado à estampa o livro Sociology, Aesthetics and the City, editado por Vincenzo Mele (professor da Monmouth University, EUA) e publicado pela Imprensa da Universidade de Pisa, Itália. Escrevo nele, com Catarina Mota, um capítulo. Naturalmente, recomendo a obra.

http://www.edizioniplus.it/italiano/AspFiles/libro.asp?codlibro=728

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Dos formatos da cognição na acção

«Dans la relation entre modalités de connaissance et modalités d'action, les classements occupent une place importante, comme le montre le débat suivant de "cognition sociale". Bernard Conein, qui a remarquablement oeuvré pour ce champ disciplinaire à la frontière entre sociologie et sciences cognitives, critique l'extension que donne Rosch à son modèle de prototype lorsqu'elle l'étend aussi bien aux oiseaux qu'aux meubles. Cet élargissement ignore les différences entre "domaines conceptuels" reconnues par Scott Atran comme déterminant différentes "attentes de sens commun": identification essentielle et taxinomique propre au domaine biologique, catégorisation des objets fonctionnels (artefact), catégorisation des êtres intentionnels (personnes). Ces différences rejailissent sur la structure des catégories. Meuble n'est pas une partie de la définition de chaise, alors qu'animal est une partie de la définition de chat. La catégorisation taxinomique s'éloigne ainsi d'une identification par reconnaissance, ancrée dans la perception, cette dernière étant à l'origine du rapprochement par types. Remarquons cependant que la différence entre un rapprochement "taxinomique" logique, et un rapprochement perceptuel par typicité, peut se brouiller lorsque l'on considère les modalités d'action dans lesquelles ces catégorisations son mises en oeuvre. Ainsi que l'indique Conein, Atran observe que l'entrée de certaines formes vivantes dans le régime de l'usage, et leur emploi dans l'alimentation, le jardinage ou l'agriculture modifient le statut cognitif de certains spécimens. C'est précisement cette question qui nous a conduit à distinguer des régimes d'engagement permettant de différencier les façons de saisir des êtres, sans les attacher rigidement à des domaines comme Atran suggère de le faire. Un être de nature peut être saisi fonctionnellement, et un artefact "intelligent" traité raisonnablement dans un régime intentionnel. La notion de régime permet d'éclairer le type de propriété atribuée aux agents de l'environnement aussi bien qu'à l'acteur engagé, et donc le format de l'information pertinente pour saisir des propriétés».


THÉVENOT, L. (2006). L'action au pluriel. Paris: La Découverte.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Apoios



Imagem extraída de:
http://www.empresascentral.com.br/index.php?route=product/product&product_id=125


Nancy Nersessian, investigadora nomeada para o Prémio Fernando Gil 2010, tem efectuado investigação sobre os mecanismos «cognitivos e culturais» subjacentes à inovação científica. Como tenho trabalhado a partir de um quadro sociológico pragmático e me interessam os problemas colocados pelos investigadores da «cognição distribuída», resolvi deixar aqui uma citação desta autora:

«(...) The complex problem-solving practices of research in science and engineering require that science studies researchers understand and analyze them as forming and being enacted within cognitive-cultural systems. These systems comprise humans, artifacts, and procedures, ranging from techical to mentoring. A cognitive-cultural system is not a fixed entity, and thus should not be reified.»

NERSESSIAN, N. (2006). «The Cognitive-Cultural Systems of the Research Laboratory». Organization Studies.

domingo, 22 de maio de 2011

Reflexão domingueira

Admitindo que não existem conceitos «a priori» na mente humana, forçosas se tornam a apercepção e a compreensão de que quanto existe de conceitos (grosso modo) comuns na mente de diferentes sujeitos resulta de um qualquer trabalho de comunalização, como é o caso num processo de socialização ou educação. É assim, ademais, que um «fundo comum de conhecimento», ele próprio com um fundamental valor de sobrevivência para a espécie humana, é transmitido, por exemplo entre sujeitos.


Não devemos, porém, confundir um fundo conceptual comum com um fundo linguístico comum. Se é certo que cabe esclarecer ainda, por meio de complexa investigação, as relações entre os dois termos, não o é menos que existem «regiões» conceptuais da mente que não se formam exclusivamente a partir dos padrões sonoros ou escritos a que chamamos palavras.


Esta constatação não significa, entretanto, uma cedência à ideia de existência de uma experiência fundamentalmente privada do mundo, a qual se relacionaria de modo ainda por deslindar inteiramente com a linguagem verbal. Aqui, na verdade, a investigação pragmatista permite-nos afirmar que a experiência conceptual do mundo, mesmo quando não totalmente verbal(izada), depende em alguns de seus mais decisivos aspectos de dispositivos materiais e simbólicos que organizam essa experiência e, por conseguinte, os seus arranjos conceptuais. O que significa que a mesma é ainda comum. É assim que as significações conceptuais subjectivamente elaboradas a propósito do mundo podem permanecer tendo esperança de se fundarem objectivamente, isto é, no quadro do concerto comum das consciências.

Tolerância e pluralismo

«A diferença [entre uma sociedade pluralista e uma sociedade tolerante] é que uma sociedade tolerante consente na existência de modos de vida concorrentes, mas não atribui nenhum valor a esta diversidade. Pelo contrário, uma sociedade pluralista não apenas tolera modos de vida concorrentes, como também estima que a sua existência seja uma coisa importante».



Avishai MARGALIT, La société décente.

Humilhação

«(...) O conceito-chave da humilhação é a rejeição da humanidade comum. Mas uma tal rejeição não se funda na opinião ou na posição segundo a qual a pessoa rejeitada não é senão um objecto ou um animal. A rejeição consiste em comportar-se como se a pessoa fosse um objecto ou um animal. Uma tal rejeição consiste habitualmente em tratar os homens como sub-homens».

Avishai MARGALI, La société décente.

sábado, 7 de maio de 2011

Pascal sobre a tirania





«É da natureza da tirania o desejo de poder sobre o mundo inteiro e fora da sua esfera própria.

Há diversos grupos - os fortes, os belos, os inteligentes, os devotos - e cada homem reina no seu e não em qualquer outra parte. Porém, algumas vezes encontram-se, e tanto os fortes como os belos lutam pelo predomínio - estupidamente, pois o seu predomínio é doutro género. Não se entendem entre eles e cada um comete o erro de aspirar ao domínio universal. (...) As seguintes afirmações são por isso falsas e tirânicas: 'Porque sou belo, exijo respeito'; 'Sou forte, logo os homens devem amar-me...?; 'Sou... etc.'.

A tirania é o desejo de obter por um meio aquilo que só por outro se pode conseguir. Temos deveres diferentes para com diferentes predicados: o amor é a resposta adequada ao encanto, o medo à força e a crença à instrução».



Blaise PASCAL, Pensamentos.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Laurent Thévenot - Conferência

Por sugestão de um colega que, além de profissional, é também, se assim o posso dizer, um «amante» de sociologia, pus-me a procurar conferências e entrevistas de sociólogos no YouTube. Encontrei uma conferência de Laurent Thévenot, que aqui deixo. É com muito prazer que aqui exponho uma ínfima parte do trabalho deste grande sociólogo (também economista), com quem já tive a grata oportunidade passar alguns momentos discutindo trabalho sociológico e a cujo trabalho recorro muito frequentemente.

http://www.youtube.com/watch?v=z3GD7cFVvq4

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Formação e Identidades

Deixo abaixo a ligação para um blogue (que vou fazer figurar na coluna lateral deste) que disponibilizo às turmas de um mestrado em que lecciono. Faço-o por me parecer que pode ter interesse para quem se interessa pelas matérias aí trabalhadas e no dia em que surgem os produtos finais de mais um semestre.

http://formacaodeadultoseidentidades.blogspot.com/

Plagiar compensa (?)

Não resisti a colocar aqui a ligação para uma notícia muito interessante.

http://pt.euronews.net/2011/02/18/universidade-pressiona-ministro-alemao-da-defesa-para-responder-a-acusaces-de-/

Uma questão de foco



Sociologists in my tradition routinely seek understanding of social organizations by looking for trouble, for situations in which people complain that things aren't as they should be.

Howard BECKER, Telling About Society

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Carta às almas piedosas (apócrifa)

Que horror me causam os livros, Senhores; que horror eles me causam. Que horror às boas almas hão-de causar. Pois quê? Não se encontram, neles, mirabolantes viagens, impiedosas sátiras, indigestas ironias, perturbadores conceitos? Onde, se não nos livros, se vislumbram iguais - e ainda maiores - artifícios? Isso, artifícios - com que essa turbamulta de escrevinhadores espalha o mal e a sua sombra por esta nossa terra.
Tomemos o caso da juventude; é nos livros que ela se corrompe. É pela leitura, estranho e esotérico labor, que se impõem aos espíritos fracos dos mais débeis dos jovens perniciosas e deletérias mentiras. Ou não é nos seus prometidos caminhos que os mais novos julgam discernir a prática de se questionar a ordem natural das diferenças?, a pretensão de se raciocinar de modo dito autónomo e individual (expressões vazias, cujo sentido se desconhece e a nada correspondem, pois claro)?, de se desrespeitarem, enfim, a regra e a ordem estabelecida das coisas?
Que desequilíbrio, Senhores - e que imperfeição nos traz a leitura. É no próprio tecido das coisas que penetram suas artes de engano, as mesmas que sugerem possível alterar o olhar e o pensar dos homens. Velhos e novos, grandes e pequenos - assim se encontram, sem disso se darem conta, distantes da realidade e caídos no vazio exorbitante da especulação indolente!
É a soberba, a jactância, o egoísmo dos leitores, esse género decaído de homens; não os ouvis? Acaso não os ouvis perguntar sobre a razão da hierarquia?; sobre a causa das coisas?; sobre a natureza do próprio pensar? Assim constroem essa insuportável e arrogante distância sobre a urgência das coisas, assim julgam subtrair-se à necessidade verdadeira, imponente e toda-poderosa do mundo. Como esse infame e pusilânime Português, que, dissoluto, sugeriu que os havia - aos que se vão da lei da morte libertando.
Senhores, que tempos bons, os da minha aldeia! Quando o horizonte era o do olho e não havia notícia de semelhantes desregramentos. Puxava o boi o carro sem se perguntar o porquê de fazê-lo e sem, por isso, deixar de saber como e para onde ia!

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Goffman sobre a prestação de serviços especializados

«The type of social relation I will consider (...) is one where persons (clients) place themselves in the hands of other persons (servers). Ideally, the client brings to this relationship respect for the server's technical competence and trust that he will use it ethically; he also brings gratitude and a fee. On the other side, the server brings: an esoteric and empirically effective competence, and a willingness to place it at the client's disposal; professional discretion; a voluntary circumspection, leading him to exhibit a disciplined unconcern with the client's other affairs or even (in the last analysis) with why the client should want the service in the first place; and, finally, an unservile civility.»
Erving GOFFMAN, Asylums

sábado, 15 de janeiro de 2011

Simbólico e transcendência: Ricoeur


Imagem extraída de: http://gpeculturais.blogspot.com/2007/08/paul-ricoeur-um-filosofo-que-olhou-para.html

«La justification de l'herméneutique ne peut être radicale que si l'on cherche dans la nature même de la pensée réflexive le principle d'une logique du double sens, complexe et non arbitraire, rigoureuse dans ses articulations, mais irréductible à la linéarité de la logique symbolique. Cette logique n'est plus alors une logique formelle, mais une logique transcendantale; elle s'établit en effet au niveau des conditions de possibilité; non des conditions de l'objectivité d'une nature, mais des conditions de l'appropriation de notre désir d'être: c'est ainsi que la logique du double sens, propre à l'herméneutique, est d'ordre trasncendantal.»

Paul RICOEUR, De l'interprétation - Essai sur Freud.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Provincianismo

Experiências recentes e pessoais levam-me a expor aqui um delicioso texto de Fernando Pessoa. É certo que altero um pouco, com isto, o tom geral do discurso neste espaço. Mas, nem por isso me sinto menos compensado.


«Se, por um daqueles artifícios cómodos, pelos quais simplificamos a realidade com o fito de a compreender, quisermos resumir num síndroma o mal superior português, diremos que esse mal consiste no provincianismo. O facto é triste, mas não nos é peculiar. De igual doença enfermam muitos outros países, que se consideram civilizantes com orgulho e erro.

O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela — em segui-la pois mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz. O síndroma provinciano compreende, pelo menos, três sintomas flagrantes: o entusiasmo e admiração pelos grandes meios e pelas grandes cidades; o entusiasmo e admiração pelo progresso e pela modernidade; e, na esfera mental superior, a incapacidade de ironia.

Se há característica que imediatamente distinga o provinciano, é a admiração pelos grandes meios. Um parisiense não admira Paris; gosta de Paris. Como há-de admirar aquilo que é parte dele? Ninguém se admira a si mesmo, salvo um paranóico com o delírio das grandezas. Recordo-me de que uma vez, nos tempos do "Orpheu", disse a Mário de Sá-Carneiro: "V. é europeu e civilizado, salvo em uma coisa, e nessa V. é vítima da educação portuguesa. V. admira Paris, admira as grandes cidades. Se V. tivesse sido educado no estrangeiro, e sob o influxo de uma grande cultura europeia, como eu, não daria pelas grandes cidades. Estavam todas dentro de si".

O amor ao progresso e ao moderno é a outra forma do mesmo característico provinciano. Os civilizados criam o progresso, criam a moda, criam a modernidade; por isso lhes não atribuem importância de maior. Ninguém atribui importância ao que produz. Quem não produz é que admira a produção (...).

É na incapacidade de ironia que reside o traço mais fundo do provincianismo mental. Por ironia entende-se, não o dizer piadas, como se crê nos cafés e nas redações, mas o dizer uma coisa para dizer o contrário. A essência da ironia consiste em não se poder descobrir o segundo sentido do texto por nenhuma palavra dele, deduzindo-se porém esse segundo sentido do facto de ser impossível dever o texto dizer aquilo que diz. Assim, o maior de todos os ironistas, Swift, redigiu, durante uma das fomes na Irlanda, e como sátira brutal à Inglaterra, um breve escrito propondo uma solução para essa fome. Propõe que os irlandeses comam os próprios filhos. Examina com grande seriedade o problema, e expõe com clareza e ciência a utilidade das crianças de menos de sete anos como bom alimento. Nenhuma palavra nessas páginas assombrosas quebra a absoluta gravidade da exposição; ninguém poderia concluir, do texto, que a proposta não fosse feita com absoluta seriedade, se não fosse a circunstância, exterior ao texto, de que uma proposta dessas não poderia ser feita a sério.

A ironia é isto. Para a sua realização exige-se um domínio absoluto da expressão, produto de uma cultura intensa; e aquilo a que os ingleses chamam detachment — o poder de afastar-se de si mesmo, de dividir-se em dois, produto daquele "desenvolvimento da largueza de consciência" em que, segundo o historiador alemão Lamprecht, reside a essência da civilização. Para a sua realização exige-se, em outras palavras, o não se ser provinciano.

O exemplo mais flagrante do provincianismo português é Eça de Queirós. É o exemplo mais flagrante porque foi o escritor português que mais se preocupou (como todos os provincianos) em ser civilizado. As suas tentativas de ironia aterram não só pelo grau de falência, senão também pela inconsciência dela. Neste capítulo, "A Relíquia", Paio Pires a falar francês, é um documento doloroso. As próprias páginas sobre Pacheco, quase civilizadas, são estragadas por vários lapsos verbais, quebradores da imperturbabilidade que a ironia exige, e arruinadas por inteiro na introdução do desgraçado episódio da viúva de Pacheco. Compare-se Eça de Queirós, não direi já com Swift, mas, por exemplo, com Anatole France. Ver-se-á a diferença entre um jornalista, embora brilhante, de província, e um verdadeiro, se bem que limitado, artista.

Para o provincianismo há só uma terapêutica: é o saber que ele existe. O provincianismo vive da inconsciência; de nos supormos civilizados quando o não somos, de nos supormos civilizados precisamente pelas qualidades por que o não somos. O princípio da cura está na consciência da doença, o da verdade no conhecimento do erro. Quando um doido sabe que está doido, já não está doido. Estamos perto de acordar, disse Novalis, quando sonhamos que sonhamos. »

Fernando Pessoa, in 'Portugal entre Passado e Futuro'
Extraído de http://citador.pt/pensar.php?op=10&refid=200905221400&author=334

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Boltanski sobre a singularidade

Imagem retirada de: http://www.liberation.fr/sortir-de-la-crise/0101557163-on-humilie-les-gens-on-les-pousse-a-bout

«Les êtres humains vivant en société, nécessairement inscrits en différentes taxinomies, doivent (...) pouvoir aussi être identifiés comme étant des individus singuliers. Ils sont alors qualifiés par rapport à un ensemble dont ils constituent le seul membre. In ne suffit donc pas qu'ils soient des spécimens d'une espèce (l'espèce humaine) ou des membres de différentes catégories qui les saisissent chaque fois en tenant compte de l'une de leurs propriétés (être un oncle, appartenir à tel ou tel sous-groupe, ou, dans notre société, à telle ou telle profession ou à telle classe sociale, etc.) pour prendre place dans la société de leurs semblales. Chacun d'entre eux doit également constituer un être singulier, c'est-à-dire un être unique tel qu'aucun autre ne puisse se susbtituer à lui et prétendre être absolument le même

Luc BOLTANSKI, La condition foetale - Une sociologie de l'engedrement et de l'avortement.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Pensamento

Um dos últimos «Câmara Clara» versou sobre a importância da reflexão e do pensamento, nomeadamente de raiz filosófica. Merece a pena ver e ouvir (o que não significa concordar sempre e com tudo o que é ali dito).

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Morris sobre Mead - Pragmatismo e Universalidade

C.W. Morris
Imagem retirada de: http://www.pragmatism.org/research/prag_books.htm

Estudando recentemente o livro Mind, Self and Society, de George Herbert Mead, encontrei as seguintes afirmações de Morris (na Introdução ao livro, que compilou), tão rigorosas quanto esclarecedoras sobre as relações entre as teorias pragmatistas e a epistemologia, designadamente no que toca o valor da universalidade. Partindo do quadro analítico pragmatista (com óbvias coincidências com a filosofia do «segundo Wittgenstein»), o autor esclarece-nos da seguinte forma.


«It is frequently stated that the pragmatist must be a nominalist and cannot do justice to the fact of universality. In reality, pragmatism is nearest at this point to medieval conceptualism. It is only when the symbol is a bare particular, standing indifferently for a number of other particulars, that nominalism is the result. As a fact, however, the significant symbol, as a gesture, is not arbitrary, but always a phase of an act, and so shares in whatever universality the act possesses. (...) Universality is thus not an entity but a functional relation of symbolisation between a series of gestures and of objects, the individual members of which are "instances" of the universal.


(...) The objects have universality in relation to the act which they indifferently support; the act has universality as the character of being supported indifferently by a range of objects. In such a situation the act or segment of the act that is the gesture may be regarded as the universal under which fall or in which participate the stimulus objects as particulars; while the universality of the objects is the character they possess in common of serving as stimuli to the act. By making universality relative to the act it is brought within the scope of an empirical science and philosophy.


(...) The generalized other, in terms of the account just given, may be regarded as the universalization of the process of role-taking: the generalized other is any and all others that stand or could stand as particulars over against the attitude of role-taking in the co-operative process at hand.»


MORRIS, Charles W. (1962). Introduction. in MEAD, George H. Mind, Self & Society from the Standpoint of a Social Behaviorist. Chicago: The University of Chicago Press.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Goffman: laços sociais


Imagem extraída de: http://www.horst-helle.de/goffmand.htm

«The bonds that tie the individual to social entities of different sorts themselves exhibit common properties. Whether the entity is an ideology, a nation, a trade, a family, a person, or just a conversation, the individual's involvement in it will have the same general features. He will find himself with obligations: some will be cold, entailing alternatives foregone, work to be done, service rendered, time put in it, or money paid; some will be warm, requiring him to feel belongingness, identification, and emotional attachment. Involvement in a social entity, then, entails both commitment and an attachment


GOFFMAN, Erving (1961). Asylums - Essays on the Social Situation of Mental Patients and Other Inmates. New York: Anchor Books.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Trickle Down?

Imagem retirada do sítio web da Economist's View

Resolvi partilhar a ligação que fica abaixo. Esta ligação remete para um pequeno artigo publicado no Economist's View, no qual se analisa o «mito» de que o crescimento económico geraria, só por si e automaticamente, a redução e mesmo, no limite, a erradicação da pobreza. Curto, mas incisivo e interessante. Agradeço aos colegas da secção de Pobreza, Exclusão Social e Políticas Sociais da Associação Portuguesa de Sociologia que divulgaram este artigo.

http://economistsview.typepad.com/economistsview/2010/11/when-is-economic-growth-good-for-the-poor.html?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed%3A+EconomistsView+%28Economist%27s+View+%28EconomistsView%29%29


sábado, 30 de outubro de 2010

Turismo cultural, territórios e identidades

Saiu recentemente um livro, coordenado por Maria da Graça Poças Santos, no qual figura um capítulo por mim escrito, recuperando um texto de há alguns anos. Resolvi partilhar a informação aqui. Remeto para o endereço no Facebook da Editora, a Afrontamento.

http://pt-pt.facebook.com/note.php?note_id=135244129854987

sábado, 16 de outubro de 2010

Weller e o Estado

Muito embora já sobre ela tenha passado uma década, a entrevista de Jean-Marc Weller disponível através da hiperligação seguinte permanece com uma actualidade total. O autor aborda o trabalho realizado nas «burocracias» do Estado, designadamente ao nível daquilo a que chama a «baixa administração», de uma forma tão original quanto fecunda e possibilitadora de reorganizações perceptivas sobre o funcionamento dos organismos públicos.


http://www.vacarme.org/article27.html

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

A quem possa interessar

Deixo abaixo a hiperligação para um artigo que tive a oportunidade de escrever com o Prof. Doutor José Manuel Resende, da Universidade Nova de Lisboa e que está agora disponível, através da Universidade de Nice.

http://revel.unice.fr/symposia/actedusoin/index.html?id=649

Conferências

Michael Burawoy no ISCTE, em Lisboa


Imagem extraída de : http://dn.sapo.pt/inicio/ciencia/interior.aspx?content_id=1353622



Deixo abaixo a hiperligação para duas conferências, ocorridas num congresso da American Sociological Association, com introdução de Michael Burawoy, sob o tema genérico The Future of Neoliberalism. As conferências são do antigo presidente da República do Brasil, Fernando Henrique Cardoso (que é sociólogo) e do Nobel da Economia Paul Krugman. A não perder.

Etnografia global?

É com palavras irónicas que Michael Burawoy abre o livro por si dirigido, Global Etnhography. Deixo-as aqui expostas.

«How can ethnography be global? How can ethnography be anytinhg but micro and ahistorical? How can the study of everyday life grasp lofty processes that transcend national boundaries? After all, participant observation, as sociologists have crafted it, aims for the subjective interpretation of social situations of the foundations of human interaction. It was designed to elucidate social processes in bounded communities or negotiated orders in institutions. It was incontrovertibly intended for the small scale. It was not certainly not meant for the global!»
Michael Burawoy, Global Ethnography

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Memória III

Edward Shils
« Segregação e disciplina do carisma intenso

Todas as sociedades procuram tomar algumas precauções em relação àquelas pessoas cujas acções são motivadas pela possessão da legitimidade carismática. No interior dos sistemas religiosos, as ordens monásticas cenobíticas ou anacoréticas constituem estruturas institucionais para a segregação e controlo daqueles que estão dotados de carisma, isto é, àqueles que que têm uma predisposição para ressentir um contacto directo com poderes transcendentes. Desse modo são afastados do local da rotina e ao mesmo tempo a sua qualidade carismática é preservada e disciplinada no interior da ordem legítima da colectividade religiosa, na qual uma certa quantidade de atenuação e dispersão do carisma foi conseguida e fixada.

As universidades, que têm de reproduzir muitos padrões de pensamento e avaliação estabelecidos e que têm de manter tradições, enfrentam problemas semelhantes ao tratarem com pessoas jovens com grandes inclinações carismáticas intelectuais e morais. Através da instrução e da investigação, tentam disciplinar essas inclinações carismáticas e orientá-las, pelo menos a princípio, para os problemas aceites e para a visão aceite da ordem da natureza. A descoberta de verdades totalmente novas através da intuição, quando não é controlada pelas técnicas reconhecidas de observação e interpretação, é rejeitada. Aqueles que insistem em utilizar a sua intuição são quer expulsos, quer obrigados a submeter-se à disciplina prevalecente. (...)

Através da segregação, os guardiões das esferas de rotina da vida social mostram ao mesmo tempo o seu receio da natureza disruptiva do carisma intenso e concentrado e a sua apreciação de uma virtude que exige o seu próprio reconhecimento. No entanto, apesar destes esforços para limitar aqueles que possuem tendências carismáticas muito fortes a situações em que eles possam operar carismaticamente e para os submeter à disciplina da institucionalização, os limites são por vezes transgredidos. Os guardiões da ordem de rotina mantêm um reforço contínuo das barreiras contra a movimentação livre das pessoas carismáticas. Nem sempre têm sucesso. (...) Houve ciências que foram revolucionadas por inteligências carismáticas que ninguém conseguiu suprimir; géneros artísticos foram transformados, apesar da resistência da ortodoxia, pelos portadores de uma sensibilidade original, carismática».

Edward SHILS, Centro e Periferia.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Crítica(s)?


Afirmava Theodor Adorno que, na investigação em ciências sociais, é necessário adequar a coisa ao conceito e não o conceito à coisa. Rejeição do empirismo, portanto. Empirismo que é acusado - na sua versão sociológica, o positivismo - de, por ser mera adequação à realidade existente, encerrar o pensamento sobre o social no quadro das estruturas de dominação próprias a uma determinada formação social e, no limite, tornar-se mero conhecimento de tipo tecnocrático, ao serviço dos poderes existentes.


A questão que este tipo de posicionamento me suscita é a de saber se o distanciamento crítico inscrito na organização conceptual não empirista do trabalho sociológico pode apenas redundar numa crítica à dominação. Diria que não. Diria mesmo que a questão me parece quase retórica, se pensarmos no conceito de «tipo ideal» de Weber. Um tipo, para Weber, representa uma abstracção, de tal modo que não encontraremos nunca uma realidade empírica que se conforme completamente à sua descrição. Não obstante, possui forte fecundidade heurística, como sabem os sociólogos, quando comparado com as realidades empiricamente observáveis no sentido de se perceber em que medida as mesmas dele se desviam.


O vasto património científico da sociologia tem assim, pelo menos desde Weber, um exemplo claro da possibilidade de distanciamento crítico que não seja uma crítica social da dominação. Por outro lado, o mesmo exemplo afasta com clareza o fantasma tecnocrático, espécie de distopia sociológica brandida amiúde e com afinco pelos mais ínclitos representantes da Teoria Crítica. Assim, empirismo e crítica da dominação não são as únicas opções teórico-epistemológicas deixadas ao sociólogo.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Crítica Habermasiana

Imagem obtida em:http://endireitandoeendireitando.blogspot.com/2010/06/jurgen-habermas-pensamento.html

«A consciência tecnocrática é, por um lado, "menos ideológica" do que todas as ideologias precedentes; pois, não tem o poder opaco de uma ofuscação que apenas sugere falsamente a realização dos interesses. Por outro lado, a ideologia de fundo, um tanto vítrea, hoje dominante, que faz da ciência um feitiço, é mais irresistível e de maior alcance do que as ideologias de tipo antigo, já que com a dissimulação das questões não só justifica o interesse parcial de dominação de uma determinada classe e reprime a necessidade parcial de emancipação por parte de outra classe, mas também afecta o interesse emancipador como tal do género humano».

Jürgen HABERMAS, Técnica e Ciência como «Ideologia»

terça-feira, 14 de setembro de 2010

II Colóquio Luso-Brasileiro de Sociologia da Educação


Nos passados dias 8, 9 e 10 de Setembro, decorreu na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Portalegre o II Colóquio Luso-Brasileiro de Sociologia da Educação, evento em cuja Comissão Organizadora tive a honra de participar.
A meu ver, foi um Colóquio com um nível elevado de discussão científica, associado a um ambiente cordial, amistoso e próximo. Não quis deixar de o assinalar.

Mais informações em:
http://www.esep.pt/documentos/II%20COLÓQUIO%20LUSO-BRASILEIRO%20DE%20SOCIOLOGIA%20DA%20EDUCAÇÃO/12072010flyer-coloquio.pdf

domingo, 5 de setembro de 2010

Reconhecimento II

Axel Honneth
Retirado de: http://www.information.dk/191944

Nos termos de Axel Honneth, a reificação não resulta de um processo no qual se oponham o reconhecimento e a objectivação. Para o sociólogo alemão, ela acontece quando a objectivação envolve um esquecimento da relação primária (genética e categorialmente primária) que mantém com o reconhecimento.


As teses que Honneth sustenta, a este respeito, indicam, parece-me, uma espessura antropológica entendida pelo autor como irredutível (e, designadamente, irredutível às teses utilitaristas). É esta irredutibilidade, penso, que sustenta toda a possibilidade de uma crítica às formas de reificação. O autor, por outro lado, tem o particular discernimento de não reduzir a objectivação à reificação, procedimento que anularia eventualmente a possibilidade de qualquer discurso crítico ou científico sobre as sociedades humanas.

Reconhecimento I

Axel Honneth
Imagem retirada de: http://gramscimania.blogspot.com/2010/06/entrevista-con-axel-honneth-nunca-ha.html

Preocupação, participação ou envolvimento, de acordo, respectivamente, com as terminologias de Heiddeger, Lukács e Dewey: expressões diferenciadas que designam algo de assaz próximo daquilo que Axel Honneth nomeia como reconhecimento. O reconhecimento, para Honneth, precede, no duplo sentido genético e conceptual, o conhecimento. É na relação prática com o mundo, espécie de simpatia existencial, que se funda o acto cognitivo, ao contrário do que pretende a atitude «tradicional» que julga ver na pura relação cognitiva entre um sujeito e um objecto o fundamento da relação humana com o mundo. Noutra linguagem, Deweyana, o envolvimento na situação precede o processo de abstracção - cognitiva, linguística - de um aspecto particular da mesma, ele mesmo enraizado e retirando parte do seu sentido desse envolvimento.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Memória II

«A teoria da consciência colectiva constitui a trave mestra da sociologia de Durkheim. É a sua ogiva; é sobre ela que se apoia toda a sua concepção da especificidade do social e da sua irredutibilidade a outros sectores do real. Ela está na origem do seu método sociológico, da oposição que estabelece entre a solidariedade mecânica e a solidariedade orgânica, da sua sociologia jurídica e da sua sociologia religiosa, da sua teoria do suicídio e da sua interpretação do Totem e do Maná, na origem enfim da sua ciência dos factos morais e da sua teoria dos valores».
Georges Gurvitch, A vocação actual da sociologia (Ed. Or. de 1968, póstuma).

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Metodologia de investigação I

Numa proposta já com alguns anos, Michelle Lessard-Hébert, Gabriel Goyette e Gérald Boutin propõem que se conceba o processo de investigação apoiado numa estratégia de investigação qualitativa como um espaço quadripolar, organizado portanto em torno de quatro pólos que se implicam mutuamente: o pólo epistemológico, o pólo teórico, o pólo morfológico e o pólo técnico.
Não irei aqui tratar, com a detenção merecida, o pólo morfológico, mas pretendo deixar exposta uma citação que nos remete para um domínio de trabalho e reflexão do investigador, por exemplo o sociólogo, que nem sempre é recordado como devia ser:
«O pólo morfológico relaciona-se com a estruturação do objecto científico; estruturação essa que se exprime através de três características fundamentais.
Este pólo opera, em primeiro lugar, ao nível da exposição do objecto de conhecimento, de uma forma superficial pelo estilo através do qual o investigador exprime os seus resultados mas, fundamentalmente, pela construção de modelos, que podem ser lineares ou "tabulares", de tipo simbólico ou icónico.
Em seguida, a função do pólo morfológico reporta-se a um espaço de causação. A causação é uma posição de coerência lógica e/ou significativa que articula os factos científicos numa configuração operativa. Ela suscita o problema do atomismo ou do holismo, da explicação ou da compreensão. A "explicação" remete para um tipo de causalidade "externa" e visa isolar invariantes ou leis. A "compreensão" origina um tipo de causalidade "interna", tipo expressivo que se refere ao significado dos fenómenos compreendidos como totalidades por um sujeito.
Por último, a função do pólo morfológico é a de permitir uma objectivação dos resultados da investigação, que se processa segundo vários modos.
No âmbito do nosso estudo das metodologias qualitativas, examinaremos, em primeiro lugar, a "estruturação" dos resultados da investigação, ou seja, aquilo que é normalmente apelidado de organização e apresentação dos resultados; trata-se de uma das etapas, ou componentes, da análise dos resultados. Seguidamente, debruçar-nos-emos sobre as modalidades de redacção de um relatório de investigação».
Autores citados, Investigação qualitativa - fundamentos e práticas. Lisboa: Piaget.